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Mulheres palestinas descrevem à CNN o terror de como fugiram da cidade de Gaza | CNN Brasil

por karolineporto
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Depois de ficarem presos em um prédio durante mais de uma semana em um bairro da cidade de Gaza sitiado por tropas israelenses, um grupo de mulheres palestinas disse à CNN que foram forçadas a fugir para o sul com os seus filhos.

Elas deixaram outros membros da família para trás e algumas andaram descalças por mais de 20 quilômetros ao longo de um trecho da costa para fugir.

Uma mulher disse que não teve escolha senão abandonar a madrasta idosa na praia e temia que ela fosse atacada por cães que perambulavam pela área.

A CNN conversou com as quatro mulheres do hospital dos Mártires de Al-Aqsa, em Deir Al-Balah, centro de Gaza, onde chegaram em 3 de fevereiro com seus 16 filhos – de 9 meses a 12 anos – depois de caminharem por cerca de oito horas debaixo de chuva fria desde a cidade de Gaza.

O grupo de familiares e vizinhos, que são de Abu Eskandar, um bairro no norte de Gaza, disseram que procuraram abrigo na cidade de Gaza durante a sua viagem para sul, se refugiando em um prédio de apartamentos no bairro de Al-Rimal.

Em extensas entrevistas, as mulheres alegaram que as forças israelenses raptaram os seus maridos e filhos, familiares mais velhos e uma irmã, uma médica, do edifício de apartamentos onde estavam abrigadas na cidade de Gaza.

Elas acusaram os militares israelenses de explodir o prédio, bem como outros nas proximidades.

Um vídeo compartilhado nas redes sociais no dia 4 de fevereiro mostrava em ruínas o prédio onde as mulheres diziam estar abrigadas.

O proprietário do edifício, Abdallah Wael, confirmou à CNN que ele foi destruído há pouco mais de uma semana e que o vídeo era autêntico.

Wael acrescentou que estava ciente de que as famílias deslocadas estavam abrigadas e que as mulheres foram avisadas que precisavam partir.

O alto comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, disse em nota na quinta-feira (8) que as forças israelenses estavam realizando demolições de edifícios residenciais e outras estruturas civis em todo o enclave, incluindo na cidade de Gaza.

É difícil ter acesso a Al-Rimal para verificar o que está acontecendo lá, pois os combates estão intensos.

A CNN não conseguiu confirmar de forma independente as alegações feitas pelas mulheres, mas cada uma delas deu relatos muito semelhantes sobre o que aconteceu.

O bairro nobre de Al-Rimal, na cidade de Gaza, foi devastado pela intensa campanha de bombardeios de Israel, lançada em resposta aos ataques mortais do Hamas em Israel, no dia 7 de outubro.

Ataques aéreos quase constantes reduziram a escombros o outrora vibrante distrito comercial da cidade, com os seus escritórios, edifícios de apartamentos luxuosos e restaurantes.

Falando do Hospital dos Mártires Al-Aqsa em Deir Al-Balah, Israa Hassan Ahmed al-Ashkar disse à CNN que sua família ficou presa em um prédio na cidade de Gaza durante uma semana, enquanto as forças israelenses cercavam a área / Mohammad Al Sawalhi/CNN

Dezenas de milhares de pessoas fugiram da cidade em ondas desde o início dos bombardeios.

No final de janeiro, dezenas de pessoas foram mortas em ataques aéreos contra a cidade e tropas israelenses invadiram o distrito de Al-Rimal, segundo Khader Al Za’anoun, jornalista da agência oficial palestina de notícias WAFA.

Mais de 28 mil palestinos foram mortos e 66 mil feridos em ataques israelenses desde o início da guerra, de acordo com o Ministério da Saúde administrado pelo Hamas em Gaza.

Uma mulher, Israa Hassan Ahmed al-Ashkar, disse que durante uma semana inteira o grupo ficou preso no prédio de apartamentos em Al-Rimal.

Os militares israelenses “nos aterrorizaram e aterrorizaram as crianças. Durante uma semana inteira eles nos cercaram”, disse al-Ashkar.

Ela disse que eles não tinham comido ou bebido nada. “Não tem nada na casa, quase não encontro água, e era água salgada. Estava salgada. Nós bebemos e nossos filhos. Não podíamos fazer nenhum barulho… então eles não saberiam que estávamos lá”.

Hoda Harb, outra mulher do grupo que conseguiu chegar ao hospital, disse que quando os soldados israelenses finalmente chegaram ao edifício onde estavam escondidos, eles invadiram mesmo depois dela ter dito que havia crianças lá dentro.

“Abrimos a porta para eles e pedimos que não atirassem. Dissemos a eles que só tínhamos filhos, mas eles continuaram atirando”.

Ela disse que quando foram instruídos a sair, as tropas israelenses disseram que o prédio seria implodido em 10 minutos.

Hoda Harb disse que as famílias não tinham comida nem água potável enquanto se escondiam no prédio de apartamentos da cidade de Gaza / Mohammad Al Sawalhi/CNN

Al-Ashkar disse que a princípio eles não queriam sair do prédio, mas os militares israelenses iniciaram bombardeios intensivos nas imediações.

Eles “destruíram a entrada do prédio e subiram. Eles levaram todos os homens. Eles reuniram as pessoas que estavam no porão e as levaram para cima”, disse ela.

Ela alegou que as tropas israelenses espancaram e despiram os homens no prédio.

“Eles estavam congelando, vestindo apenas roupas íntimas. Depois disso, pediram a todos nós, a todas as mulheres, que descêssemos”. Muitos homens foram detidos, afirmou ela. “Ouvimos os gritos deles porque estavam espancando eles”.

Al-Ashkar disse que as forças israelenses colocaram explosivos nos edifícios onde as pessoas estavam abrigadas.

“Ouvimos as casas desabando sobre as cabeças das pessoas”, afirmou ela, e depois as ruínas dos edifícios foram demolidas.

“Eles estavam prestes a nos enterrar também, mas imploramos que nos deixassem sair. Eles nos deixaram sair e levaram os homens nos tanques. Disseram para irmos em direção ao mar, para Rafah”.

A CNN pediu às Forças de Defesa de Israel (FDI) comentários sobre as alegações feitas pelas mulheres.

Eles afirmaram que as forças israelenses estavam operando em “fortalezas do Hamas” como parte dos seus esforços para desmantelar as capacidades militares do grupo e resgatar reféns israelenses feitos pelo Hamas.

As FDI afirmaram também que estavam evacuando civis de zonas de combate para áreas mais seguras e que os seus ataques foram realizados com base em informações sobre infraestruturas terroristas.

Palestinos reúnem-se perto de casas destruídas por bombardeio israelense na Faixa de Gaza, na cidade de Rafah, ao sul da Faixa / 19/12/2023 Shadi Al-Tatabibi/REUTERS

“Indivíduos suspeitos de envolvimento em atividades terroristas estão sendo detidos e interrogados. Os indivíduos que não participam em atividades terroristas são libertados”, disseram as FDI, acrescentando que os detidos foram “tratados de acordo com o direito internacional”, mas que as revistas sem roupas eram “frequentemente necessárias” para garantir que eles não estavam escondendo coletes explosivos ou outras armas.

“Em situações em que os soldados não cumprem as ordens das FDI, os incidentes são minuciosamente revisados e ações disciplinares são implementadas, se necessário”, disseram as FDI.

Walla Abdul Rahim Shabaan al-Arbeel contou como foi difícil a jornada para o sul de Al-Rimal – com um tio sofrendo de câncer e duas pessoas com deficiência precisando de cadeiras de rodas.

Sete pessoas do grupo chegaram até uma rotatória chamada al-Mina, na costa, disse ela, mas não conseguiram prosseguir e a Sociedade do Crescente Vermelho Palestino não conseguiu encontrá-los. O que aconteceu com eles é desconhecido.

A CNN perguntou ao Crescente Vermelho sobre o grupo, mas a organização humanitária disse que era extremamente difícil documentar incidentes individuais, devido à dificuldade de comunicação e acesso à área.

“Meus filhos caminhavam o dia todo na chuva. Passamos mais de oito horas caminhando. Sem sapatos e sem roupa. Eles não nos deixaram levar nada”, disse al-Ashkar, referindo-se à viagem desde o prédio na cidade de Gaza.

Com base no percurso descrito pelas mulheres, a viagem a pé teria sido de mais de 20 quilômetros. Grande parte da caminhada foi na areia ao longo da costa.

Walla Abdul Rahim Shabaan al-Arbeel disse que a fuga de quilômetros da cidade de Gaza até Deir Al-Balah foi muito difícil para os idosos e deficientes do seu grupo, e alguns não conseguiram continuar / Mohammad Al Sawalhi/CNN

Al-Ashkar disse que a caminhada durou mais de oito horas e disse que as forças israelenses disparavam contra eles enquanto caminhavam.

Ela disse: “Saímos sem nada. Eles se recusaram a nos dar qualquer coisa. Sem leite. Meu filho não tem leite nem fraldas. Nem mesmo água. Durante todo o caminho, estou pedindo para ele andar e ele diz ‘estou cansado’. Eu disse a ele que também estou cansada”.

Ela descreveu a devastação enquanto caminhavam ao longo da costa. “Todas as ruas estão destruídas”.

Al-Arbeel forneceu um relato muito semelhante da sua interação com as forças israelenses.

“Na semana passada, no domingo, ao final da tarde, eles vieram e nos cercaram com tanques. Não conseguimos sair. Não havia comida, nada para beber, nem água. Não conseguimos nem acender as luzes. Estávamos com medo de que eles nos vissem”.

A irmã dela, que é médica, seus dois irmãos e seu marido foram levados, disse ela. Ela não sabe o que aconteceu com eles.

Quando ela finalmente saiu do prédio, al-Arbeel disse que os soldados israelenses “não me deixaram levar leite para meu filho. Não há casacos para meus filhos. Eles estavam descalços. Nada. Eu estava implorando, mas eles não me deram nada”.

Ao descrever a viagem até o hospital, ela disse que puderam ver barcos com mísseis israelenses ao longo da costa e temeram que fossem alvejados.

“Não tínhamos permissão para parar. Se parássemos um pouco, ou os barcos no mar nos veriam, ou os tanques do outro lado. Estávamos morrendo. Passamos pelo inferno”.

Harb disse que eles não tiveram comida durante o cerco em Al-Rimal. “As crianças ficavam pedindo comida, um pedaço de pão, só um pouco de água”.

Ela disse que durante a longa caminhada pelas praias sob a chuva fria, ficou com medo de que cães de rua estivessem caçando as crianças e, a certa altura, sua madrasta caiu.

Tala Harb, 10 anos, à esquerda, disse que viu as tropas israelenses fazerem os homens de sua família tirarem as roupas antes de levá-los embora / Mohammad Al Sawalhi/CNN

“Ela ficou azul, ficou tão cansada. Eu tentei, queria ajudá-la e trazer ajuda para ela, mas não consegui, chorei tanto por ela, fiquei falando para ela: ‘Levanta, tenta só andar, levanta’”, lembrou Harb.

“Ela me disse: ‘Apenas me deixe, apenas se afaste dos israelense’. Ela ficava dizendo: ‘Vá, vá, vá, não quero que eles atirem em vocês’”.

“Eu a cobri, não pude fazer nada por ela, os cachorros estavam perto dela. Deixei ela viva, dei uma garrafa de água para ela e disse para ela me perdoar por não poder ajudá-la”.

A filha de Harb, Tala, de 10 anos, também descreveu o que aconteceu quando eles disseram que foram forçados pelas tropas israelenses a deixar o prédio, dizendo: “Eles levaram meu pai, tio e primos, e os obrigaram a tirar todas as roupas. Meu pai está doente e pode morrer de frio. Até meu tio e meu avô [eles] os deixaram só de cueca e camiseta”.

Tala disse ter medo de que os israelenses tivessem explodido o prédio enquanto os homens da família ainda estavam lá dentro, mas não sabia ao certo o que havia acontecido com eles.

Outro membro da mesma família, Warda Fadeel El Helw, também se lembrou do colapso da madrasta de Harb durante a viagem.

“Não pudemos ajudá-la; ela não conseguiu continuar e caiu na praia. Ela nos disse para deixá-la e ir embora, e que Deus está com ela, então nós a cobrimos e fomos embora”, disse ela.

“Estávamos andando na água, na areia e na lama, o esgoto e as pedras até as nossas pernas”.

*Com informações de Mohammad Al Sawalhi, de Gaza, e Abeer Salman, de Jerusalém.

Este conteúdo foi criado originalmente em inglês.

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