Corinthians tem que parar de transformar tudo em política igual com Memphis
Negociação avançou entre os departamentos do clube e o staff do atacante, mas decisão final está nas mãos da presidência A situação envolvendo Memphis...
Negociação avançou entre os departamentos do clube e o staff do atacante, mas decisão final está nas mãos da presidência
A situação envolvendo Memphis Depay e o Corinthians chegou a um ponto que expõe muito mais do que uma simples divergência contratual. O problema já não está apenas nas cláusulas, nos juros ou na dívida que o clube precisa pagar ao jogador. Essas questões foram discutidas entre os departamentos envolvidos e, pelo cenário apresentado, encontraram um caminho para serem resolvidas. O que resta agora é uma decisão política, e é justamente aí que o Corinthians se colocou em uma situação absolutamente desnecessária.
O clube deveria ter tratado essa renovação com objetividade desde o começo. Se entendesse que não tinha condições de manter Memphis, deveria ter sentado com o jogador, explicado a situação e encerrado a negociação. Se entendesse que a permanência era importante para o projeto esportivo, financeiro e de marketing, deveria ter assumido a responsabilidade e conduzido o acordo até o fim. O que não faz sentido é deixar uma negociação praticamente resolvida chegar ao dia de uma viagem decisiva de Libertadores sem que o treinador sequer saiba se poderá contar com seu principal jogador.
E o mais preocupante é que essa indefinição não parece nascer do departamento de futebol. Fernando Diniz quer o jogador, Memphis quer permanecer, os setores jurídico e financeiro avançaram nas questões contratuais e o staff do atleta também negociou. Mesmo assim, a caneta continua parada. Enquanto isso, o Corinthians assiste à própria novela se transformar em um problema esportivo, político e institucional. Uma situação que poderia ter sido resolvida com liderança virou mais um episódio de instabilidade dentro do clube.
Uma decisão que precisava ter sido tomada
O Corinthians sabia que essa negociação seria complexa. A dívida acumulada com Memphis não desapareceu e representa uma obrigação pesada para o clube. A atual gestão também tem razão em olhar com cuidado para um compromisso financeiro que foi construído anteriormente. Mas justamente por isso era necessário planejamento. Não é possível chegar à véspera de um jogo de Libertadores discutindo se o contrato será assinado ou não, especialmente depois de semanas de conversas.
A cláusula que permitia ao jogador deixar o clube em caso de atraso no pagamento da dívida, os valores corrigidos e as condições do novo vínculo precisavam ser resolvidos pelos profissionais responsáveis. Se esses pontos foram finalmente ajustados, cabia à presidência tomar uma decisão. E assumir a responsabilidade por ela. O presidente não pode permitir que pressões de aliados, grupos políticos ou pessoas próximas determinem uma decisão que deveria ser baseada no interesse do Corinthians.
Porque a indecisão também tem um custo. Memphis não está treinando com o elenco enquanto aguarda a assinatura. Diniz precisa montar sua equipe sem saber se terá o atacante à disposição. O clube perde previsibilidade, o jogador fica exposto e o torcedor acompanha tudo com a sensação de que existe uma disputa interna acontecendo às custas do futebol. É exatamente o tipo de situação que uma direção deveria evitar.
Corinthians precisa parar de transformar tudo em política
O caso Memphis virou um retrato de um problema maior do Corinthians: a dificuldade de separar política e futebol. Não há nada de errado em discutir se um contrato é financeiramente sustentável. Pelo contrário. O clube precisa fazer essa conta. O erro está em permitir que a discussão se arraste indefinidamente depois que os departamentos responsáveis chegaram a uma solução.
Se o Corinthians entende que Memphis é caro demais, que diga isso e encerre o vínculo. Se entende que vale a pena mantê-lo, que assine e banque a decisão. O que não pode acontecer é ficar no meio do caminho, deixando uma negociação praticamente concluída ser travada por pressão política. Isso não protege o clube. Apenas aumenta o desgaste.
E existe ainda uma questão básica: a dívida continuará existindo independentemente da renovação. Se Memphis ficar, o Corinthians terá de pagar. Se Memphis sair, também terá de pagar — e ainda poderá enfrentar uma relação muito mais desgastada com o jogador, além de possíveis consequências jurídicas. Portanto, adiar a decisão não elimina o problema. Apenas empurra a conta para frente e acrescenta mais uma camada de insegurança.
No fim, o Corinthians deveria ter sido enfático desde o primeiro momento. Renova ou não renova. Paga o que deve, cumpre o acordo e segue em frente. O torcedor pode até discordar da decisão escolhida, mas pelo menos saberá que existe uma direção assumindo responsabilidade. Transformar uma negociação que já avançou tanto em uma queda de braço política, justamente às vésperas de uma decisão continental, é uma situação que o Corinthians não poderia ter permitido chegar tão longe.