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Leila Pereira dá pista sobre 2027 e Palmeiras encara o maior teste de seu legado

Entre recordes bilionários e receitas históricas, surge a grande dúvida: as conquistas pertencem à presidente ou viraram um método permanente? Há dirigen...

Leila Pereira dá pista sobre 2027 e Palmeiras encara o maior teste de seu legado
Leila Pereira dá pista sobre 2027 e Palmeiras encara o maior teste de seu legado (Foto: Reprodução)

Entre recordes bilionários e receitas históricas, surge a grande dúvida: as conquistas pertencem à presidente ou viraram um método permanente?

Há dirigentes que deixam títulos. Outros deixam dívidas. Alguns deixam inimigos. Os melhores deixam instituições. Leila Pereira acaba de colocar uma data no relógio do Palmeiras: dezembro de 2027. É quando termina seu segundo mandato e, segundo a própria presidente, ela pretende “voltar de onde vim”, para suas empresas, depois de seis anos dedicados ao clube. A frase parece apenas uma informação sobre o futuro pessoal de Leila. Não é. Ela produz uma reflexão muito maior: o que exatamente ficará de pé no Palmeiras quando Leila não estiver mais na sala?

Uma gestão realmente forte não pode depender eternamente da pessoa que ocupa a cadeira. Leila construiu uma administração extremamente identificada com sua personalidade, sua capacidade empresarial, seu poder de negociação e também com a disposição de colocar a própria imagem no centro das disputas. Isso faz parte da história. Mas existe uma diferença importante entre uma presidente forte e uma instituição forte: a segunda precisa funcionar quando a primeira vai embora. O verdadeiro legado vai além do que SEP conquistou enquanto Leila esteve lá. Será aquilo que o Palmeiras conseguir conservar quando ela sair.

Há um detalhe que impede qualquer análise séria de tratar a gestão como mero personalismo. O Palestra mudou de tamanho. Em 2025, o clube alcançou receita total de R$ 1,783 bilhão e superávit de R$ 292,4 milhões, números recordes e muito acima do resultado originalmente previsto no orçamento. Isso não é patrimônio pessoal de Leila. É patrimônio institucional. Dinheiro, processos, contratos, estrutura comercial e capacidade de geração de receita precisam sobreviver à eleição de 2027. O desafio agora é transformar o desempenho financeiro de uma gestão em característica permanente. Porque superávit é excelente. Melhor ainda é fazer com que ele deixe de ser notícia e passe a ser método.

O próprio Clube apresenta sua estratégia em torno de gestão profissional, aumento de receita, novas instalações, investimento na base, responsabilidade institucional, futebol profissional, resultados e Centro de Excelência. O Alviverde inclusive passou a publicar relatórios integrados de gestão, numa tentativa de apresentar seus dados de maneira mais institucional.

Trata-se de uma mudança importante de mentalidade. Assim, uma nova pergunta surge, mais direta do que a que praticamente abriu o texto: essas coisas pertencem a Leila ou pertencem ao Palmeiras? Se pertencem ao clube, sobreviverão à troca de presidente. Se dependem excessivamente da presidente, dezembro de 2027 será mais do que uma sucessão eleitoral.

Sobre as Crias e a estrutura da Academia

A base talvez seja o exemplo mais interessante dessa transição. Jogadores formados em casa não deveriam ser associados a uma administração específica. Pois se configura em uma verdadeira conquista construir uma máquina capaz de produzir jogadores, desenvolver patrimônio esportivo, financeiro e abastecer o time profissional independentemente de quem esteja no gabinete presidencial. A mesma lógica vale para o Centro de Excelência e para a infraestrutura. Instalações permanecem. Processos permanecem. Conhecimento acumulado permanece. Presidentes passam. É justamente por isso que uma boa gestão precisa ter a humildade de construir coisas que continuarão funcionando sem ela.

Até Abel Ferreira entra nessa conta de uma maneira curiosa. O contrato do treinador também termina em dezembro de 2027, exatamente no mesmo momento em que acaba o mandato de Leila. A presidente já deixou claro que não pretende decidir a renovação do técnico, transferindo essa responsabilidade para o próximo comandante do clube. É uma decisão mais importante do que parece. Isso porque o Palmeiras precisa descobrir se seu projeto esportivo é maior que Abel.

Não porque Abel seja dispensável — muito pelo contrário —, mas porque nenhum clube pode confundir um ciclo extraordinário com a própria identidade. Se o próximo presidente puder conversar com Abel sobre o futuro sem precisar reconstruir o Palmeiras inteiro, haverá uma demonstração concreta de maturidade institucional.

Gestão financeira terá suas provas de fogo

Há também o dinheiro que não aparece numa fotografia de troféu. Patrocinadores, contratos, direitos, relacionamento comercial, planejamento de elenco, mecanismos de formação, governança e capacidade de investimento são coisas que precisam atravessar a eleição. Um Palmeiras realmente preparado para o pós-Leila não pode depender de uma única fonte, de uma única pessoa ou de uma única conjuntura econômica. Precisa ter musculatura para absorver as pancadas que inevitavelmente virão.

É por isso que a governança talvez seja o ponto mais sensível desse legado. O Palmeiras continuará elegendo presidentes, conselheiros e disputando poder. Afinal, é a vida política de uma associação centenária. O problema começaria se cada mudança de comando significasse uma mudança de modelo. O próprio clube mantém mecanismos formais de prestação de contas, análise anual do balanço e auditoria externa. Quanto mais esses processos forem respeitados e fortalecidos, menos importante será saber quem é o dono da caneta. Acredito que seja a maior evolução que uma presidência pode deixar: fazer com que a caneta seja menos poderosa que a instituição.

Responsabilidade muito além da ‘caneta’

Até dezembro de 2027, a atual gestão terá tempo para concluir projetos, consolidar contratos, preparar sucessão e entregar um Palestra ainda mais robusto. Mas também terá de lidar com um teste que acompanha qualquer grande dirigente. Quanto maior a influência pessoal construída durante uma gestão, maior é a responsabilidade de converter essa influência em patrimônio coletivo. A presidente pode deixar o futebol. O modelo que deu certo não pode deixar o Maior Campeão do Brasil.

A declaração de Leila sobre o fim de seu período no comando Alviverde revela, talvez sem perceber, a primeira linha do exame final de sua própria administração. Em dezembro de 2027, ela entregará o cargo. No dia seguinte, o Verdaço continuará tendo contas para pagar, jogadores para contratar, garotos para formar, contratos para renovar, eleições para disputar e títulos para ganhar. É aí que se saberá o tamanho real do legado. O verdadeiro sucesso de Leila não será o Palmeiras que ela deixar em dezembro de 2027. Será o Palmeiras que continuará funcionando em janeiro de 2028. O cargo acaba. A história palestrina segue.