Opinião: A mitologia grega ajuda explicar troca de Filipe Luís por Leonardo Jardim no Flamengo
Trocar um treinador significa muito mais do que mudar um comandante A verdadeira ruptura acontece em princípios, relações e comportamentos invisíveis Sempr...
Trocar um treinador significa muito mais do que mudar um comandante A verdadeira ruptura acontece em princípios, relações e comportamentos invisíveis
Sempre achei curioso como alguns mitos gregos conseguem explicar o futebol moderno melhor do que muita mesa-redonda. Um deles é o de Sísifo, condenado pelos deuses a empurrar uma enorme pedra montanha acima. Quando finalmente parecia alcançar o topo, a pedra escapava e rolava novamente até a base. Restava a ele começar tudo outra vez. É impossível olhar para a troca constante de treinadores no futebol brasileiro sem lembrar dessa história.
Hoje, ao analisar a saída de Filipe Luís e a chegada de Leonardo Jardim, no início do ano, observando dificuldade do Flamengo em voltar no alto padrão competitivo de outrora, confesso que o mito grego foi a primeira imagem que me veio à cabeça.
Não escrevo isso para defender que Filipe Luís deveria permanecer eternamente no cargo, nem para questionar a capacidade de Leonardo Jardim. O ponto, para mim, é outro. Um treinador não entrega apenas uma escalação diferente ou uma estratégia para o domingo seguinte. Ele cria princípios, comportamentos, automatismos e uma forma específica de interpretar o jogo. Isso leva tempo. Quando esse processo é interrompido, o sucessor não herda uma obra pronta. Na maioria das vezes, herda uma pedra novamente no pé da montanha.
A perigosa aposta em recomeçar constantemente
É justamente aí que vejo a maior diferença entre analisar futebol pelo resultado e analisá-lo pelo aspecto tático. Os números podem dizer que um trabalho fracassou ou deu certo. Mas os mecanismos coletivos contam uma história bem mais complexa. Um modelo de jogo amadurece com repetição. Pressão coordenada, ocupação de espaços, movimentos sincronizados e leitura coletiva não aparecem por acaso. São conceitos treinados diariamente. Quando um treinador vai embora, boa parte desse aprendizado perde valor, porque o novo comandante naturalmente enxerga o jogo de outra maneira.
Foi isso que aconteceu no Flamengo. Filipe Luís construiu uma identidade própria, baseada em determinados comportamentos que cravaram títulos de peso, como o Brasileirão e a Libertadores em um mesmo ano. A chegada de Jardim inicia outro processo, com outras ideias, outros princípios e novas exigências. Não significa que um esteja certo e o outro errado. Significa apenas que o elenco precisou reaprender, que talvez provocou a perda de trunfos primordiais que foram sucesso com Filipe.
O mais curioso é que o torcedor costuma enxergar apenas a superfície dessa mudança. Ele percebe um volante diferente, um lateral mais preso ou um atacante ocupando outra faixa do campo. Só que as transformações mais profundas são invisíveis. Elas acontecem nos detalhes: na altura da linha defensiva, na forma de pressionar, na saída de bola, na distância entre os setores e até no momento exato em que um companheiro deve atacar o espaço. É esse conhecimento coletivo que demora meses para ser consolidado e pode desaparecer em poucas semanas.
Contradição difícil de ignorar
Talvez por isso eu ache tão perigoso viver trocando treinadores. A sensação de novidade é sedutora. Parece que basta um novo comandante chegar para todos os problemas desaparecerem. Mas o futebol raramente funciona assim. O elenco precisa abandonar hábitos antigos para incorporar novos conceitos, enquanto o clube alimenta a expectativa de que os resultados apareçam imediatamente. É uma contradição difícil de ignorar. No caso em questão, já não é a espera o problema da Gávea, e sim se a dúvida se a condução de Jardim está no caminho certo.
E volto, então, a Sísifo. Durante muito tempo, seu mito foi interpretado como a representação do fracasso eterno. Hoje, muitos preferem enxergá-lo como um símbolo de resistência. No futebol, porém, a comparação revela outra camada. Sísifo era condenado a reiniciar sua jornada. Os clubes fazem isso por decisão própria. Sempre que um projeto é interrompido antes de amadurecer, não se troca apenas o treinador. Reinicia-se uma linguagem, desmontam-se relações construídas diariamente e adia-se, mais uma vez, a possibilidade de descobrir até onde aquele trabalho poderia chegar.
A pedra tem que parar de rolar abaixo
No fim das contas. o que me intriga é perceber como o futebol brasileiro insiste em tratar continuidade como um luxo, quando talvez ela seja justamente o ingrediente que transforma boas ideias em grandes equipes. Enquanto a cultura do recomeço prevalecer, treinadores entrarão e sairão, modelos táticos nascerão e morrerão, e a pedra de Sísifo continuará rolando montanha abaixo. Não porque o topo seja inalcançável, mas porque quase nunca permitimos que alguém complete a escalada.