Opinião: Fagner e a ética que o futebol esquece na hora de dizer adeus
Quando um jogador sai sem explicar, a palavra “ingratidão” aparece rapidamente. Por que a mesma cobrança não deveria existir quando a decisão de romper ...
Quando um jogador sai sem explicar, a palavra “ingratidão” aparece rapidamente. Por que a mesma cobrança não deveria existir quando a decisão de romper parte do clube?
A declaração de Fagner depois da vitória do Cruzeiro sobre o Corinthians me incomodou mais pelo que ela representa do que pela história particular do jogador. Ao reencontrar o clube que defendeu por 578 partidas, o lateral revelou que foi comunicado por telefone de que não fazia mais parte dos planos e que, segundo sua versão, muitos torcedores sequer sabiam que ele havia sido dispensado. Não estou aqui para transformar Fagner em vítima, muito menos para colocar o Timão no banco dos réus. Mas não consigo olhar para uma história tão grande e achar normal que seu último capítulo possa ter sido escrito dessa maneira.
Fagner teve problemas, viveu oscilações e perdeu espaço. Isso faz parte do futebol. A chegada de Matheuzinho, por exemplo, mudou sua condição dentro do elenco, e ninguém pode exigir que um clube mantenha indefinidamente um jogador apenas pelo passado. O Corinthians tinha o direito de entender que aquele ciclo havia terminado. O que eu questiono é outra coisa: por que, no futebol, tantas vezes confundimos o direito de tomar uma decisão com o direito de conduzi-la de qualquer maneira? Para mim, são coisas completamente diferentes.
Estamos falando de um jogador que deixou o Clube com 578 partidas, 12 gols e cinco títulos: os Brasileiros de 2015 e 2017 e os Paulistas de 2017, 2018 e 2019. Ele saiu como o sétimo atleta que mais vestiu a camisa na história do clube. Não são números que obrigam ninguém a mantê-lo no elenco. Mas são números que deveriam obrigar qualquer dirigente a entender a dimensão da conversa que está tendo. Quando um jogador alcança esse tamanho dentro de uma instituição, a forma de dizer adeus também passa a fazer parte da história.
E é justamente aqui que eu encontro uma das maiores contradições do futebol. Quando um jogador decide sair de repente, sem explicar direito, ouvimos imediatamente palavras como ingratidão, falta de respeito, falta de compromisso e ausência de ética, a classificação de mercenário é usada sem limites. O clube se sente traído. A torcida se sente abandonada. Mas quando a decisão parte do outro lado, muitas vezes tratamos a situação como simples rotina administrativa. “É negócio”, dizem. “Faz parte”, repetem. Eu até concordo que faz parte. Só não concordo que fazer parte do futebol seja sinônimo de fazer qualquer coisa.
Relação descartável só prejudica o futebol
Não estou dizendo que Fagner deveria ter recebido uma despedida de gala, uma estátua ou uma garantia de titularidade. Também não estou dizendo que a versão apresentada por ele encerra a discussão. Há sempre mais de um lado em qualquer ruptura, e o próprio jogador teve momentos em que sua relação com a torcida foi marcada por críticas e questionamentos. Mas a ética não deveria depender de concordarmos com a pessoa. Se a decisão era dispensá-lo, que fosse tomada. Se a relação precisava terminar, que terminasse. O mínimo que se espera de uma instituição diante de alguém que ajudou a construí-la é transparência na hora de comunicar isso e até mesmo um sinal de gratidão com quem incorporou a alma da Fiel.
Talvez o que mais me incomode seja perceber como o futebol brasileiro se acostumou a relações descartáveis. O jogador é patrimônio quando está rendendo, problema quando envelhece e simplesmente uma linha em uma planilha quando deixa de fazer parte dos planos. O curioso é que cobramos do atleta uma espécie de fidelidade emocional que nem sempre devolvemos a ele. Queremos que ele beije o escudo, respeite a camisa, aguente críticas e permaneça comprometido até o último dia. Mas, quando chega a hora de encerrar o vínculo, esquecemos que existe uma pessoa por trás do contrato.
Olhares desiguais sobre atitudes de Clubes e jogdores
Fagner não precisa estar certo em tudo para que o Corinthians possa ter errado na condução. Essa é, para mim, a parte mais importante dessa história. Podemos discutir suas atuações, sua fase final, suas escolhas e até mesmo se era correto mantê-lo. O que não deveríamos normalizar é a ideia de que o fim de um ciclo autoriza a falta de consideração por tudo aquilo que veio antes. Porque se amanhã um jogador abandonar um clube depois de anos de história, seremos os primeiros a exigir que ele explique, converse e respeite a instituição. Eu gostaria que essa régua valesse para os dois lados.
No fim, o que Fagner me fez pensar não foi sobre Fagner. Foi sobre o futebol que estamos construindo. Um futebol em que contratos parecem valer mais do que relações e em que a ética costuma aparecer apenas quando é conveniente para quem fala. Eu acredito que clubes têm o direito de mudar seus projetos, dispensar ídolos e encerrar ciclos. Mas também acredito que uma instituição grande precisa saber fazer isso com grandeza. Fagner seguirá sua carreira, o Corinthians seguirá sua história e aquela passagem jamais será apagada: 578 jogos, cinco títulos e uma marca que o colocou entre os maiores que vestiram a camisa. Talvez seja justamente por isso que eu ache que uma história desse tamanho merecia um último capítulo melhor escrito.