Opinião: Giay contagia Palmeiras e pode ser combustível para acordar um time ‘acomodado’
Argentino foi o herói contra a LDU e prova que raça, entrega e disposição são capazes de reconectar o Verdão com uma identidade que a torcida nunca negoci...
Argentino foi o herói contra a LDU e prova que raça, entrega e disposição são capazes de reconectar o Verdão com uma identidade que a torcida nunca negociou
Há jogadores que conquistam o torcedor pelo talento. Há outros que conquistam pela identificação. E existem aqueles que, mesmo sem serem brilhantes tecnicamente, conseguem algo talvez ainda mais difícil: fazer o torcedor do Palmeiras enxergar neles a camisa que estão vestindo.
Agustín Giay parece estar entrando nesse terceiro grupo. Na vitória por 1 a 0 sobre a LDU, na última quarta-feira (9), pelo jogo de ida das quartas de final da Libertadores, o argentino foi o grande nome do Palmeiras. Foi eleito o craque da partida pela Conmebol, marcou o gol da vitória e levou para Quito uma vantagem importantíssima na luta por uma vaga na semifinal.
Mas o gol é apenas uma parte da história. Aos 22 anos, Giay precisou de 98 jogos para marcar seu primeiro tento pelo Palmeiras. E foram 95 partidas até registrar sua primeira assistência. Números que dizem muito sobre um jogador que, durante boa parte de sua passagem, foi cobrado e criticado justamente por aquilo que não tem como principal virtude: a capacidade técnica.
Técnica é tudo para conquistar o palmeirense?
Giay não é um jogador nota 10. Talvez nunca venha a ser. Mas pode ser exatamente o jogador nota 7 que o Palmeiras precisa.
Porque existe uma diferença enorme entre ser um jogador nota 7 e ser um jogador que joga nota 7. Giay pode não entregar a genialidade de um craque, mas entrega algo que não se treina facilmente: raça, intensidade, disposição e comprometimento.
E isso o torcedor do Palmeiras reconhece. Não é por acaso que Giay revelou, após a partida, na zona mista do Nubank Parque, que sempre sonhou em ser amado e valorizado pelo torcedor palmeirense. É justamente aí que a história começa a ficar interessante.
Porque talvez o lateral-direito esteja finalmente entendendo aquilo que o palmeirense espera de quem veste essa camisa. Não é necessário ser o mais habilidoso. Não é necessário ser o mais midiático. Não é necessário ser o craque do time. Mas é necessário não se esconder.
Foto: gerada com auxílio de IA pelo Bolavip Brasil | Estatística: SofascoreÉ necessário correr quando a perna pede para parar. É necessário disputar uma bola como se fosse a última. É necessário voltar para marcar, dividir, pressionar, insistir e demonstrar que aquela camisa importa.
E Giay fez tudo isso contra a LDU.
O Palmeiras precisa voltar a ter fome
O que mais chama atenção no momento atual do Palmeiras não é apenas uma eventual deficiência técnica. É a sensação de que, em determinados momentos, falta ao time um pouco daquela personalidade que marcou tantas equipes históricas do clube.
O Palmeiras nunca construiu sua identidade apenas em cima de craques. A história do clube também foi feita por jogadores que talvez não fossem os mais talentosos do elenco, mas que jamais poderiam ser acusados de falta de entrega.
Jogadores que faziam o torcedor sair do estádio pensando: “Esse cara pode até errar, mas deixou tudo em campo.” É isso que cria identificação. É isso que transforma jogador em ídolo. E é isso que Giay começa a construir.
O problema é que o Palmeiras atual, em alguns momentos, parece excessivamente acomodado. Um time que sabe jogar, sabe competir, tem jogadores de enorme capacidade, mas que eventualmente transmite uma frieza que incomoda quem está do lado de fora.
E futebol de Libertadores não perdoa isso. Muito menos um clube como o Palmeiras.
Na altitude de Quito, na próxima semana, não haverá espaço para jogador mimado, corpo mole ou reclamação a cada contato. Será necessário correr, competir, sofrer e suportar pressão. Será necessário ser Giay.
Isso não significa dizer que o talento não importa. Claro que importa. Um jogador nota 10 pode decidir partidas sozinho. Pode criar uma jogada impossível. Pode fazer aquilo que poucos conseguem.
Mas um jogador nota 10 sem comprometimento pode ser menos útil do que um jogador nota 7 que aceita sofrer pelo time. E essa talvez seja uma das maiores lições deixadas por Giay contra a LDU.