cover
Tocando Agora:

Opinião: Luighi transforma nova engrenagem financeira e revela estratégia do Palmeiras no mercado

Quatro gols em 12 jogos mudaram a percepção sobre o atacante e o Palmeiras passou a ter mais de uma alternativa para aproveitar essa valorização Luighi tal...

Opinião: Luighi transforma nova engrenagem financeira e revela estratégia do Palmeiras no mercado
Opinião: Luighi transforma nova engrenagem financeira e revela estratégia do Palmeiras no mercado (Foto: Reprodução)

Quatro gols em 12 jogos mudaram a percepção sobre o atacante e o Palmeiras passou a ter mais de uma alternativa para aproveitar essa valorização

Luighi talvez esteja fazendo mais pelo Verdão longe do Palmeiras do que conseguiu fazer dentro dele. A frase parece cruel, mas os números são suficientemente objetivos para dispensar crueldade. Em 45 jogos pelo profissional alviverde, o atacante marcou cinco gols. No New York City FC, chegou a quatro em apenas 12 partidas e foi eleito pelos torcedores o melhor jogador do clube em agosto e setembro. Notavelmente se trata de uma mudança de valor percebido.

Desta forma, é claro que a SEP não emprestou Luighi simplesmente para que ele jogasse mais. A operação custou ao clube americano US$ 300 mil pelo empréstimo, prevê uma opção de compra de US$ 6 milhões e ainda deixa o Palestra com 20% dos direitos econômicos em uma eventual negociação futura. Ou seja: o clube criou receita agora, uma possibilidade de venda depois e uma participação no que pode acontecer ainda mais adiante.

Isso me parece mais relevante do que a velha história do jogador que sai para “ganhar experiência”. Experiência é uma palavra simpática, mas vaga. O que Luighi está fazendo em Nova York é algo muito mais concreto: está recuperando mercado. Para um clube que precisa manter o time competitivo sem abrir mão de suas receitas, isso tem um valor considerável. O jogador que não tinha espaço com Abel Ferreira ganhou um ambiente em que passou a jogar, marcar e ser reconhecido. O Alviverde, por sua vez, continuou dono de uma parte relevante da história.

Vale lembrar que o Verdão chegou a 2026 com a necessidade orçamentária de alcançar R$ 399,6 milhões em vendas, mas a direção também estabeleceu como prioridade não desmontar o elenco principal. Leila Pereira havia defendido justamente a necessidade de encontrar criatividade para pagar as contas sem perder os jogadores considerados importantes para a disputa dos títulos. A solução encontrada passou, entre outras coisas, por atletas menos utilizados e por direitos econômicos mantidos em jogadores que estavam fora do clube.

O emblemático exemplo de Luighi não é o único

Luighi é quase um resumo dessa estratégia. Em vez de transformar receita em problema esportivo, o Palmeiras pode obter dinheiro a partir de um jogador que, naquele momento, não ocupava posição central na equipe. E não se trata de uma operação isolada. Em 2026, o clube contabilizou receitas menores com jogadores que já estavam fora do elenco, como Pedro Lima, além de Naves, vendido ao Necaxa com 25% dos direitos preservados. Em agosto, seis operações menores, entre elas Luighi e Sorriso, somavam cerca de R$ 15 milhões dentro das negociações consideradas pelo clube.

Aí aparece uma mudança de conceito que, para mim, merece atenção. O empréstimo pode deixar de ser apenas uma sala de espera para virar uma espécie de segunda janela de mercado. O jogador sai porque não tem espaço imediato, mas não sai necessariamente desvalorizado. Pelo contrário: vai para um ambiente no qual pode produzir, ganhar minutos, despertar interesse e voltar a ser uma mercadoria mais atraente. É mercado sem precisar mexer, naquele momento, no time que está disputando os títulos.

A estratégia certeira do Palestra ao negociar a Cria

O caso de Luighi também mostra por que preservar percentuais passou a ser tão importante. Se o New York City exercer a opção de US$ 6 milhões, o Palestra terá uma receita relevante pela operação e continuará com 20% dos direitos econômicos. Se o negócio não acontecer, o jogador retorna com uma temporada internacional diferente da que tinha quando saiu. Se o desempenho continuar despertando interesse, nada impede que outro mercado apareça. A opção de compra, portanto, não é necessariamente o fim da história. É uma das portas.

Isso já havia aparecido em outras negociações. O Palmeiras manteve 25% dos direitos do já citado Naves após a venda ao Necaxa e também recebeu cerca de R$ 7 milhões pela transferência de Pedro Lima do AVS para o Sporting. Em agosto, o clube informou que mantinha direitos ligados a mais de 100 atletas que estavam em outros clubes. Isso significa que a camisa do Maior Campeão do Brasil pode deixar de ser o único lugar em que o clube produz receita com seus jogadores. Parte desse mercado acontece longe da Academia.

Claro que existe um risco nessa estratégia: transformar atleta em ativo antes de tratá-lo como jogador. Esse seria o erro. Mas o caso Luighi sugere justamente uma possibilidade diferente. Quando não existe espaço esportivo imediato, o empréstimo pode ser utilizado para produzir evidência de que o atleta consegue jogar, marcar gols, suportar outro ambiente e despertar interesse. No futebol, informação também tem preço.

O avanço do olhar palestrino no mercado da bola

Vejo Luighi menos como uma história sobre a MLS e mais como uma história sobre a sofisticação do mercado palmeirense. O clube está aprendendo a fazer uma coisa difícil: gerar receita sem necessariamente vender o presente esportivo. Allan foi uma venda de enorme impacto porque estava no projeto de Abel; Luighi representa outra lógica, a de um jogador que pode se transformar em receita justamente porque encontrou longe dali o espaço que não tinha em casa. É uma diferença enorme. Talvez seja esse o próximo passo da gestão Alviverde: não apenas vender jogadores, mas criar caminhos para que jogadores que não cabem hoje no time continuem tendo valor amanhã.