Opinião: Palmeiras pode virar ponte para nova estratégia global de marca da China
Palmeiras entra em rota chinesa em negociação com a Leapmotor e camisa ganha dimensão de soft power A possível chegada da Leapmotor ao patrocínio máster ...
Palmeiras entra em rota chinesa em negociação com a Leapmotor e camisa ganha dimensão de soft power
A possível chegada da Leapmotor ao patrocínio máster do Palmeiras pode representar muito mais do que uma simples troca de marcas na camisa. Segundo informação já publicada pelo Bolavip Brasil, a montadora chinesa negocia para ocupar o espaço que deve ser deixado pela Sportingbet, depois de já ter estabelecido uma relação comercial com o clube. O acordo atual, firmado em 2026, prevê R$ 20 milhões fixos por temporada e pode chegar a R$ 30 milhões com bônus e metas. Agora, a discussão seria ampliar essa exposição para a principal propriedade do uniforme.
A primeira leitura é financeira, e ela é inevitável. A SEP perdeu a possibilidade de manter no peito uma das maiores receitas comerciais de sua história e precisa encontrar uma solução compatível com o tamanho da propriedade. Mas existe uma segunda leitura, mais interessante: por que uma montadora chinesa que acaba de consolidar sua presença comercial no Brasil estaria disposta a subir para o espaço mais nobre da camisa? A resposta pode estar menos na publicidade convencional e mais naquilo que o futebol consegue oferecer a uma marca que precisa ser conhecida, reconhecida e incorporada ao imaginário do consumidor.
Relação não parte do zero e isso pode facilitar algo maior
A Leapmotor já está inserida na camisa, nos times masculino e feminino e nas categorias de base, em um contrato que vai até março de 2028. A própria Stellantis, parceira da marca, apresentou o acordo como uma associação com um dos principais clubes brasileiros. Isso significa que a eventual negociação pelo máster não começaria do zero, pois existe uma relação comercial construída, conhecimento sobre o ambiente do clube e uma primeira experiência de exposição que pode ter aberto espaço para uma ambição maior.
Uma montadora que pretende ganhar mercado precisa vender carros, evidentemente, mas antes disso precisa construir familiaridade. O consumidor brasileiro precisa reconhecer o nome, entender o que a marca representa e, em algum momento, deixar de enxergá-la como uma empresa estrangeira que chegou ao país para passar a tratá-la como uma opção real. O futebol pode acelerar esse processo porque transforma uma mensagem comercial em presença cotidiana: a marca aparece na camisa, nas transmissões, nas redes sociais, no estádio e, principalmente, associada a uma comunidade emocional que já existia antes dela.
Esse movimento também conversa com algo maior que vem acontecendo com as empresas chinesas no esporte mundial. A Copa do Mundo de 2026 mostrou uma mudança importante nessa estratégia. Lenovo, Hisense e Mengniu permanecem entre os patrocinadores oficiais da FIFA, enquanto outras companhias chinesas passaram a buscar seleções, jogadores, propriedades específicas e formatos alternativos de exposição. A análise da Caixin mostra que as empresas do país vêm adaptando o modelo de investimento esportivo diante do aumento dos custos das grandes propriedades globais.
A ponte palestrina para o Soft Power chinês
Existe uma camada ainda mais sofisticada nessa história, com o chamado soft power chinês. O conceito não significa simplesmente utilizar dinheiro para exercer influência. Soft power é a capacidade de ampliar atração, reconhecimento e influência por meio de cultura, imagem, relacionamento e presença, em vez de recorrer apenas a instrumentos de poder econômico ou coercitivo. No esporte, isso ganha uma dimensão particular porque uma marca estrangeira passa a participar de experiências, símbolos e hábitos que já possuem significado para o público.
Os exemplos recentes ajudam a compreender essa lógica. No Mundial de 2026, a presença chinesa não ficou restrita às placas publicitárias. Segundo análise do Lowy Institute, Hisense e Lenovo criaram experiências para torcedores, enquanto a Lenovo levou sua tecnologia para a própria infraestrutura técnica da competição. Ou seja, a estratégia pode ultrapassar o simples “coloque minha marca diante de milhões de pessoas” e caminhar para “faça minha marca participar da experiência que milhões de pessoas estão vivendo”.
É importante não dar um salto maior do que as evidências permitem. Não há, nas informações disponíveis sobre a negociação, fundamento para afirmar que a Leapmotor esteja tentando utilizar o Palmeiras como instrumento deliberado de política externa chinesa. Seria uma conclusão excessiva. A parceria se encaixa em um movimento internacional no qual empresas chinesas utilizam o esporte para transformar presença econômica em reconhecimento cultural e de marca. Nesse contexto, o Maior Campeão do Brasil aparece como uma plataforma particularmente poderosa dentro do mercado brasileiro.
Um Verdão global
E isso também diz muito sobre o próprio Palmeiras. Se a negociação avançar, a SEP estará demonstrando que sua camisa pode funcionar como uma porta de entrada para empresas globais que desejam construir uma relação mais profunda com o consumidor brasileiro. O ativo não é somente o número de pessoas que enxergam o logotipo. É a capacidade de colocar uma marca estrangeira dentro de uma narrativa nacional, em um clube que possui enorme identificação popular e uma exposição internacional construída por seus resultados esportivos.
Se o acordo for concretizado, o Verdão ganhará uma nova receita e a Leapmotor ganhará exposição. Mas existe uma troca menos visível: o clube oferece à empresa algo que dinheiro sozinho não compra com facilidade — pertencimento. E talvez seja justamente nessa fronteira entre negócios, esporte, cultura e imagem que o chamado soft power chinês encontre uma de suas formas mais modernas de expressão.